Publicado em: 14/10/2016
PÂNICO NO CIRCO. SUSTO QUE QUASE VIRA TRAGÉDIA, EM NERÓPOLIS NA DÉCADA DE 1960
Por Edson Lima
Nerópolis - GO

O ano era o de 1968, e Nerópolis vivia um de seus piores momentos econômicos. Sem empregos, e sem, sequer, uma escola de segundo grau instalada no Município, não restava a nossos jovens, que sonhavam com uma melhor ascensão social, outra alternativa a não ser a de bater em retirada, em busca de melhores oportunidades nos centros maiores.

Nossa Cidade já vivia a sua ressaca, depois de ter experimentado um exuberante período de expansão e glórias, vividos nos anos 50, alavancados pela grande produção de café de boa qualidade, que promoveu um crescimento populacional fabuloso para a época, atraindo famílias inteiras de outras regiões, em especial de Minas Gerais, de onde vieram novos fazendeiros, e alguns mais abastados comerciantes. Chegaram também, e em número maior, os baianos do oeste, povo inigualável pela sua força para o trabalho. Aqui já se encontravam os japoneses e os italianos, que juntamente com os fazendeiros locais, dedicavam-se a explorar as grandes lavouras de café, o ouro verde da época.

Era inacreditável para nossos jovens que aquele marasmo pudesse estar ocorrendo em Nerópolis, município que se emancipara há pouco mais de uma década, mas que viveu um apogeu capaz de incomodar a cidades mais tradicionais e progressistas da região, como Inhumas e Jaraguá, pela velocidade em que o progresso por aqui se desenvolvia.

Nada menos que três indústrias de cerâmicas se instalaram por aqui ao mesmo tempo, sendo uma delas a “São Pedro”, do Sr. Anízio de Souza, pai do Afrânio, a maior de todo o Brasil Central. O Banco do Estado instalou aqui a sua Agência, o Cine Teatro Caiçara fora inaugurado, e lojas de grande porte como Casas Pernambucanas e Riachuelo escolheram a nossa praça para se digladiarem. Para completar, o asfaltamento da Rodovia GO-080 e o prédio do Colégio Dr. Negreiros já haviam sido inaugurados, graças à interferência do Deputado Raimundo Amaral (Nonô), que aqui residia.

De repente, como num sonho que se desfaz, tudo havia mudado. Queda no preço internacional do café, aliado a uma inexplicável diminuição da produtividade, tornou o cultivo inviável, provocando um desestímulo, seguido de uma quebradeira incontrolável. As indústrias de beneficiamento de café, com seus grande armazéns, fecharam as portas, provocando os primeiros desempregos na Cidade. No campo, o estrago já estava irremediavelmente instalado, com centenas e centenas de famílias obrigadas a deslocar-se para outras paragens em busca de serviço.

Nem mesmo os fazendeiros escaparam da terrível crise, e muitos viram-se obrigados a vender suas propriedades, para comprar terras mais ao norte do Estado, onde os preços eram infinitamente menores.

Daí por diante, foi um efeito dominó. Com o desemprego, o campo e a cidade se esvaziando, o dinheiro em circulação logo tornou-se cada vez mais escasso, e as grandes lojas, que nos enchiam de orgulho, foram as primeiras a fechar suas portas. Muitas famílias migraram para outros cantos, vários comércios de menor porte fecharam as suas portas, escolas particulares de alto nível, como o Instituto Rui Barbosa, há muito não mais existiam por aqui, e aos nossos jovens, cada vez mais, iam se fechando portas para melhores oportunidades.

Muitos se foram na verdade, mas os que aqui ficaram, numa reação natural, buscaram encontrar o seu caminho, seja enfrentando os pesados e concorridos trabalhos que por aqui restaram, ou, para aqueles de famílias com um mínimo de recurso, a saída fora buscar o aperfeiçoamento no curso ginasial do, recém-inaugurado, Colégio Estadual Dr. Negreiros, em escolas da Capital, e mesmo em cursos de datilografia, já existentes na Cidade.

Desta época difícil, passaram pelo Dr. Negreiros vários alunos que obtiveram sucesso em suas carreiras profissionais, entre eles, advogados, professores, médicos, juiz de direito, promotor de justiça, administradores de empresas, etc.

Na diversão, também novos caminhos foram buscados e naquele ano de 1968, sob a orientação do jovem professor Jerci, do Dr. Negreiros, nossa juventude passou a organizar festinhas nas casas dos colegas, todos os sábados, quando os garotos entravam com o refrigerante e a caipirinha, e as meninas providenciavam os salgados. Foi uma opção saudável, inteligente e muito concorrida, tendo surgido deste movimento, inúmeros namoros e casamentos.

Foi também neste período que dois importantes grupos encheram de orgulho a toda nossa gente. A Associação Neropolina de Esportes - ANE, com sua poderosa equipe de futebol, grande campeã goiana de 1965, e o conjunto Os Panteras, formado por jovens músicos de nossa terra, e que, sob a direção do exigente José do Vale, tornara-se a melhor banda de todo o Estado de Goiás, durante a década de 60 e inicio dos anos 70.

No entanto, o nosso dia- a- dia, principalmente para as classes menos favorecidas, era marcado pela falta de opção de lazer. Para os rapazes, tirando as escapadas ao Cabaré da Joaninha, e à Churrascaria da Luci, restava quase que só mesmo a passagem por um boteco, para encontrar os amigos e tomar algumas.

Mas, de vez em quando, a Cidade se iluminava com chegada de um Circo de Diversão. De segunda a domingo as pessoas, de todas as classes sociais, se amontoavam nas proximidades da porta de entrada, ali, num descontraído vai-e-vem, ficavam a curtir o som do serviço de alto falante, a trocar ideias, comer pipoca e amendoim, oportunidade em que os mais atirados, ofereciam músicas e arriscavam uma olhadela para as pretendidas. E dá-lhe Jerri Adriani, Vanderlei Cardoso, Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, e toda aquela turma da jovem-guarda, a crista da onda, como diziam os jovens. Vez em quando, saia lá um Waldik Soriano ou um Zilo e Zalo, mas fazer o que? A programação musical era democrática, “pagou ouviu”.

Os circos que por aqui apareciam, naquela época de “vacas magras”, não eram lá grandes coisas; lonas sujas e rasgadas, picadeiro caindo aos pedaços, animais esqueléticos e atores desdentados, compunham o universo de muitas destas casas de espetáculo. Não foram raras às vezes, em que algum fã mais generoso, se viu na difícil missão de providenciar uma vaquinha para conseguir levantar recursos e pagar o frete de um caminhão para levar embora o quase falido circo.

Mas justamente um destes humildes mambembes, o Circo do Lambari, conquistou, de vez, a simpatia de nossa gente. Aparentemente sem nada a oferecer, sobrevivendo, praticamente, da coragem de dois trapezistas, quase suicidas, que arriscavam a vida a fazer peripécias em duas gangorras, afixadas em postes enferrujados e a mais de cinco metros de altura, sem rede de proteção, o Lambari descobriu aqui em Nerópolis, que possuía, em sua equipe, um grande trunfo. As irmãs Sandrinha e Tremendona, filhas do palhaço Calhambeque, que era também o dono do circo.

Depois de rodar por todo o Estado, foi justamente aqui, que as meninas descobriram o sucesso. Vestidas tão somente com seus minúsculos biquines vermelhos, coisa raríssima de se ver por estas bandas naquela época ( afinal de contas nem sonhávamos com a existência de um clube, e o litoral mais próximo estava a mais de mil quilômetros), as beldades do picadeiro logo transformaram-se em musas para os nossos marmanjos, e em sinônimo de luxúria para muitas senhoras, chegando mesmo a representar as “mensageiras do pecado”, para as mais devotadas frequentadoras da Igreja.

Exageros a parte, as meninas eram mesmo um “pedaço de mau caminho”. Sandrinha, a caçula, tinha um corpinho de boneca, pernas grossas e roliças de manequim, seios pequenos, mas bem aprumados, um rostinho meio arredondado, com duas covinhas na face, lindos e alvíssimos dentes protegidos por lábios grossos e sensuais. Era mesmo uma “miss”, a danadinha. E cantava fazendo biquinho, com voz manhosa, enquanto requebrava, bem devagarzinho, e com gestos de quem fazia um strep tease. Uma loucura. Aquilo era coisa de só se ver nas boates dos grandes centros. A televisão daqueles tempos, muito conservadora, mal mostrava dançarinas de shortinhos, ainda por cima em preto e branco, e só no Programa do Chacrinha.

Depois era a vez da Tremendona. Com seus quase um metro e oitenta de pura beleza, a dançarina já entrava no palco sambando, jogava os cabelos para frente e para trás, num charmoso movimento com a cabeça, ao mesmo tempo em que, num frenético movimento repicado, fazia com que todo o seu corpo se movimentasse, num tremido ritmado e sensual, levando à loucura, a sua extasiada platéia masculina.

Tremendona, mesmo muito jovem, já sabia de sua força de sedução e por capricho, dirigia olhares safadinhos para os seus admiradores, fazendo cada um deles acreditar ser o escolhido daquele momento. O seu ritmo preferido era o samba, principalmente os mais embalados, onde ela podia esnobar toda a sua beleza e sensualidade nos movimentos de requebro. Mas, de repente, Tremendona sinalizava para os músicos, exigia um breque, e iniciava um requebro preguiçoso; e aí, com voz chorosa, num quase lamento, começa a cantar:

As cadeiras me doi,
É de tanto sambar,
Este samba tá bão
Tá, tá, mas não posso parar.

E cada vez mais requebrosa e chorosa, fazendo biquinho e cara de choro, falava com voz de neném, olhando para a platéia: Ai, será que alguém aí pode vir fazer uma massagenzinha na minha cadeirinha? Falava deslizando as mãos pelas costas, descendo de leve, num ritmo lamurioso, assim meio de ladinho, afastando calmamente a cabeleira que cobria todo o resto daquela parte de seu corpo que o generoso biquíni havia liberado. E continuava chorosa a reclamar de uma dorzinha e, quase suplicando, insistia na pedida de ajuda para uma providencial massagem.

Rapidamente, uma leva de fãs invadia o picadeiro, num empurra-empurra generalizado, dando enorme trabalho aos empregados, àquela altura, improvisados como seguranças, para acalmá-los. De cima do palco, a Cantora escolhia um, que era autorizado a se aproximar. Mas quando chegava o momento da esperada massagem, Tremendona esquivava-se, em movimento rápido, voltava a cantar, e ao esperançoso massagista, era oferecida a cabeluda perna do palhaço Calhambeque, para ser massageada. E aí, tome vaias e gargalhadas. A cena se repetia a todo dia, mas incrivelmente, nunca faltavam os voluntários, movidos pela esperança de massagear a deusa do espetáculo.

Certa feita, ouvi de alguns deles, que só o fato de chegar tão perto daquela mulherona, vestida só de sutiã e calcinha, já valia à pena todo o esforço, a cara de pau e as vaias recebidas.

De vez em quando, algum incidente acabava por ocorrer, como o protagonizado pelo Miltinho da Otília. Muito jovem, e talvez um dos mais fervorosos admiradores da musa, Miltinho não se conteve quando chegou mais próximo da Cantora, e num movimento rápido e cheio de gingas, desvencilhou-se dos seguranças, passou uma rasteira no Calhambeque, deixando-o com a cara na grama, e partiu pra cima da Tremendona, só a largando ao ser arrastado por uma dúzia de voluntários na segurança; porém, depois de ter conseguido aplicar pelo menos uma meia dúzia de corrida de mãos, nas desejosas ancas da fogosa bailarina.

Mais comportados, porém não menos extasiados, podia-se ver, todos os dias, nas primeiras filas das arquibancadas do Lambari, com olhos fixos e arregalados em Sandrinha e Tremendona, os jovens Vivaldão Baiano, o Dr. Paulin, naquele época ainda estudante de medicina, o Valtenio, o Zumbi, o Claré, o Dudu, o Valtinho do Táxi, o Júlio do Muxiba, o Mauro Xadrez, o Vantuir, o Raposa, o Vino, o Adenir, o Baiano Leonel, o Bento do Salu, e enfim quase toda a cambada jovem da Cidade. Entre os mais maduros, também fregueses da primeira fila, embora jurando interesse nas aventuras dos trapezistas, me lembro do João Benjamin, Silvestrinho, Zé Moço, Zezinho Borreia, Dito Teles, João Tinoco, Adercilio, Antonio Salomão, Ninico, Tatão, Iderlon Pimenta, João Nonato, João Setenta, e muitos outros, todos sempre prontos para aplaudir a qualquer gracinha que vinha daquele palco.

Mas o circo, que acabou entrando mesmo para a nossa história, era bem mais arrojado de que o simpático, mas acanhado, Circo Lambari. Desta feita, por uma feliz ironia do destino, a nossa pequenina comunidade acabou por receber um dos maiores circos que perambulavam pelos grandes centros de todo o País. Era o Gran Circo Internacional Pan Americano. A sua vinda para cá se deu por um erro de estratégia da direção da casa, tendo aportado em Goiânia, quando lá já se encontrava outro grande circo. No princípio os dirigentes pensaram apenas em acampar em Nerópolis, por alguns dias, até que a Praça do Ratinho, na Capital, pudesse recebê-los. Porém, face ao enorme interesse demonstrado pelo nosso povo, que movimentava diariamente as imediações do acampamento, situado nas proximidades da Av. JK, na quadra onde, depois, funcionou o Bar do Hamidha, na esperança de ver de perto os temidos leões, gorilas e os monstruosos elefantes de quase seis toneladas, a famosa casa de espetáculos resolveu dar uma colher de chá para nossa gente, e instalou o circo para mostrar o espetáculo.

O desfile de abertura quase parou a Cidade; todos queriam sair às ruas para ver os palhaços gigantes equilibrando em suas descomunais pernas-de-pau. Os leões vinham num caminhão jaula e, irritados com as provocações, gritos e até mesmo com as espetadas de varas que recebiam da molecada, urravam e quase arrancavam as grades de suas grandes gaiolas. Os motoqueiros do “Globo da Morte” ensurdeciam e assustavam a incrédula platéia, que se amontoava ao longo das ruas, com suas manobras arriscadas, seguidas de aceleradas que faziam voar chamas dos escapamentos de suas motos.

Um pequeno incidente quase põe fim à delirante carreata. É que um dos caminhões que conduzia o mais pesado dos elefantes quebrou bem na esquina da praça central. Depois de algumas ponderações, decidiu-se que o melhor era trocar o animal de caminhão. Mas naqueles tempos quase não tínhamos caminhões na Cidade, e o primeiro que se tentou contratar era o do Sr. Deda Baiano. Sistemático como sempre, e muito amoroso para com o seu veículo, Deda foi logo despachando o interessado, que ainda o escutou resmungando que seu carro era para transportar mercadorias, e que não estava por conta de fazer palhaçada, carregando um monstrengo daqueles, em desfile pelas ruas.

O outro camioneiro indicado foi o Sr. Luiz Muxiba. Homem tranqüilo e muito calmo, sempre pronto a servir, Sr. Luiz não fez cerimônia, a foi logo se dirigindo para a praça com o seu velho cheba. Ao chega próximo ao veiculo avariado, muxiba constatou que o elefante se encontrava no chão, e que o veiculo avariado já havia sido rebocado. Um pouco intrigado, sem entender como encarretar o monstruoso animal, que segundo lhe informaram naquele ora, pesava mais de seis toneladas, nosso Caminhoneiro foi tranquilizado pelo Domador, explicando-lhe que o elefante subiria sem ajudas ao caminhão. Mas a preocupação do Domador era outra, nunca havia transportado aquele animal em um veículo com aparência assim tão frágil.

Na verdade o caminhão do Sr. Luiz Muxiba era um Chevrolet, ano 1954, e que além de sua pintura bem gasta e com ferrugens já expostas, apresentava ainda uma visível fragilidade nas madeiras que forravam a sua carroceria. Mas o Sr. Luiz não abalou com a preocupação do cliente; na verdade se sentiu até mesmo ofendido com aquelas ponderações e, já meio impaciente bradou: - Vamo lá caboco. Bota logo esse bicho pra cima; esse cheba é pau pra toda obra! Num é essas porcaria que se fabrica hoje em dia não.

Ouvindo o desafio, o Domador deu a ordem e assim que o elefante firmou para valer, as patas dianteiras na parte traseira do caminhão, o cheba empinou-se levando a cabine a quase dois metros de altura, e dando um meio rodopio antes de voltar ao chão, investiu para a direita, quase achatando parte da multidão curiosa, que insistia em chegar cada vez mais perto, praticamente se enfiando debaixo do caminhão, na ânsia de se colocar numa posição mais privilegiada e assistir toda a inédita e divertida operação.

Na segunda tentativa, o elefante foi rápido, pisou as patas dianteiras mais adiante, e num movimento ágil, empoleirou-se por inteiro na carroceria do cheba. Só que a alegria do Domador durou pouco; no primeiro quarteirão logo a frente, o freio do velho caminhão não segurou o peso, e o experiente Luiz Muxiba não teve outra opção a não ser jogar o carro contra uma calçada mais alta, até fazê-lo parar. A manobra deu certo, mas com a bacada, o peso do animal concentrou, momentaneamente, em uma de suas patas, e aí as velhas tábuas não suportaram a pressão, e o pobre elefante afundou derrepente, fazendo com que suas patas tocassem o chão. Assustado e irritado, o elefante passou a sapatear rapidamente sobre a carroceria, e em minutos, o que se via eram tábuas voando para todos os lados. Só restou ao domador, subir no lombo do animal, e completar assim o resto do cortejo.

No segundo dia após a estreia, os proprietários do Circo perceberam que se viam diante de um sério problema. Teriam que encontrar um sistema especial para barrar a turma acostumada a invadir a casa, por baixo da lona. Depois de tantas tentativas infrutíferas, os seguranças resolveram passar mais de vinte fios de arame farpado, numa cerca em volta de todo o Circo, impossibilitando de vez a passagem de qualquer aventureiro.

No inicio do espetáculo, um segurança notou a presença de um jovem já bastante conhecido de todos ali, pela sua perícia e astúcia na arte de penetrar por baixo da lona. Era o Remo, moleque ainda muito jovem, mas famoso pelas suas traquinagens, embora já se destacasse como um excelente profissional em mecânica de automóveis. Remo, sabendo da intransponível cerca que impossibilitava a entrada no espetáculo de forma clandestina, tinha conseguido levantar uns trocados com os clientes do Pai, em sua Oficina Mecânica, e resolveu entrar pela porta da frente naquele dia. Estava ali bem comportado, sentindo-se um verdadeiro cidadão respeitável, quando o Segurança, convicto de que o jovem havia entrado mais uma vez por baixo do pano, tomou-o pelo braço e, por mais que o Remo insistisse que havia comprado o seu ingresso, foi enxotado para fora, aos empurrões, na presença da molecada, que se amontoava na portaria, na esperança de uma oportunidade para pular para dentro.

Injustiçado e muito revoltado, Remo jurou vingança. Saiu dali cuspindo marimbondos. Enquanto caminhava rumo a sua casa ia pensando numa maneira rápida e definitiva de dar o troco naquela cambada. E não demorou muito, uma ideia lhe veio à cabeça: É isto mesmo dizia em voz alta para si mesmo. Hoje a casa cai, seus filhos de uma rapariga. Seguiu resmungando, e, saltando um muro, adentrou a oficina de seu pai.

Enquanto isso, o espetáculo arrancava aplausos de uma platéia impressionante, que foi capaz de lotar as arquibancadas daquele Circo, projetado para espetáculos nas grandes cidades. Na verdade a lotação se deu mesmo só nas arquibancadas, pois nas cadeiras de pista, e nos camarotes, muito caros para o nosso padrão, quase só os convidados e autoridades marcavam presença.

Assim, nos camarotes especiais, localizados privilegiadamente quase dentro do picadeiro, estavam o Prefeito Manoel Mota e a Primeira Dama D. Belinha. Ao seu lado direito, o Presidente da Câmara de Vereadores Sandoval Xavier, o Deputado Raimundo Amaral e Dona Elza, o Delegado Rui Aires e Dona Deusalina, o Padre Jacó e o Cabo Geraldo, Chefe do Destacamento de Polícia.

Numa cadeira, mais a esquerda, estava o Nego da Prefeitura, conceituado motorista, mas que, muito solícito, acumulava funções reservadas a um Secretário Especial, sempre pronto a atender qualquer solicitação ou necessidade do Prefeito e de sua família.

Fora dali, roendo-se de ódio, o Remo já no interior da oficina do Sr. Inhô, preparava um chicote, feito com cabo de aço, no qual prendeu com abraçadeiras e parafusos, dois pedaços de molas de caminhão nas extremidades.

Voltando ao Circo, Remo localizou o transformador de energia mais próximo, e depois de fazer circular o chicote, segurando firme por uma das extremidades, o arremessou num golpe certeiro, fazendo-o se enrolar nos cabos de alta tensão de energia, afixados ao transformador.

O que se viu, a seguir, foi uma explosão com ruído tão forte, que fora escutado pelos moradores do Bairro Botafogo, lá do outro lado da Cidade. Um clarão mais intenso e duradouro de que um relâmpago, iluminou os céus de Nerópolis, que a esta altura já se via tomada pela escuridão total, causada pela súbita interrupção dos serviços de energia. Tufos de fogo brotaram do alto do poste, mais parecendo um espetáculo pirotécnico.

Naquele exato momento, no picadeiro encontravam-se os enormes e obedientes elefantes, que arrancavam aplausos da platéia ao equilibrarem enormes bolas coloridas com as suas trombas, enquanto dançavam o belisquete, um ritmo meio parecido com uma mistura de bossa nova e rock and roll.

Inicialmente, apesar do grande susto, a platéia manteve-se calma, na esperança de que a luz logo voltaria a acender. Porém, passados alguns minutos sem solução, a molecada começou a ensaiar uma pequena vaia, como se o dono da Casa tivesse alguma culpa pela falta de energia. Em pouco tempo a algazarra tomou conta do ambiente, com uma gritaria dos diabos. Os animais que até então se mostravam tranquilos, apesar do stress a que são submetidos no dia-a-dia, começaram a se inquietar com tamanho barulho e aprontaram um berreiro da fazer medo. Bramiam irritados, ao mesmo tempo em que começaram a se locomover rumo a plateia, que se encontrava nas cadeiras mais próximas e nos camarotes.

Sentindo um bafo quente a invadir a sua boca, seguido de um urro que quase lhe ensurdeceu, o Nego da Prefeitura entrou em pânico e soltou um grito de socorro tão apavorador, que superou o barulho dos animais. Nesta hora, assustada com a reação dos elefantes, a plateia que até então, se mantinha em total silencio, embora sem nada enxergar, também se assustou, entrando em desespero, temendo o ataque daquelas feras, com mais de cinco toneladas, que se encontravam ali, bem pertinho no picadeiro.

Era noite de lua nova, e a escuridão era total. De vez em quando alguém acendia um fósforo aqui ou acolá, mas o clarão que logo se dissipava, era insuficiente para visualizar qualquer movimento a mais de dois metros de distância.

Totalmente em pânico, o Nego agarrou o prefeito pelo braço, arrastando-o, junto com a primeira-dama, rumo as arquibancadas, gritando socorro, e afirmando aos berros que os elefantes estavam atacando e que já vinham logo ali atrás. Foi uma debandada geral. Mulheres com suas crianças nos braços clamavam ajuda dos céus, e a multidão cega, atropelava-se, correndo, desordenadamente, em busca de uma saída. Rapidamente todas as tábuas das arquibancadas, que naquela época não eram fixadas com parafusos ou pregos, começaram a se soltar, muitas delas projetando-se perigosamente ao serem chutadas por apressados adultos em fuga.

Dezenas de pessoas tiveram a infeliz ideia de se enfiar por baixo da lona, procurando o caminho mais curto para se chegar às ruas. Mas, na escuridão total, quem por ali seguiu, deu de cara com a perigosa cerca, com seus mais de vinte fios de arame farpado, que ali se instalara para evitar a entrada clandestina dos endiabrados “fura-lona” de nossa Cidade.

Só no outro dia foi possível saber do resultado daquela assustadora traquinagem que, por pura sorte, não se transformou numa terrível tragédia. Somando-se os estragos, computou-se alguns tornozelos e panturrilhas luxados ao se prenderem nas tabuas das arquibancadas, alguns escoriações causadas pelo pisoteio, e quase uma centena de ferimentos, provocados pelo choque dos desesperados, com a cerca de arame. Mas nada que não se pudesse ser ajeitado por aqui mesmo, nas farmácias do Pacífico e do Adjaime Dorcino.
















 
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